CONTRA TUDO E CONTRA TODOS

Por Allan Costa, Mentor/Storyteller @MidStage 

Quando falamos de empreendedorismo no Brasil, os últimos anos têm mostrado evidências claras da cada vez maior capacidade do Brasileiro de empreender. Isso é o que, recorrentemente, mostra a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que avalia anualmente o empreendedorismo em 68 países do mundo, em uma iniciativa da London Business School e da Babson College, e no Brasil é patrocinada pelo Sebrae e realizada pelo IBQP, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Nas pesquisas recentes, todos os indicadores que já vinham apontando crescimento em anos anteriores voltaram a crescer. Um dos mais expressivos é o que aponta que em cada 100 novos negócios no País, mais de 70 são abertos por oportunidade. Esse é um belo sinal da maturidade do processo empreendedor no Brasil. Quando falamos que um negócio é aberto por oportunidade, isso significa que o empreendedor identificou uma necessidade de mercado não atendida e construiu seu negócio com o objetivo de explorar essa oportunidade de forma consciente e profissional. O outro lado da moeda, que era a regra até poucos anos atrás, era o empreendedor que criava o seu empreendimento por necessidade. Nesse caso, a chance de insucesso é sempre muito maior já que essa modalidade de empreendedorismo raramente vem acompanhada de preparo, planejamento e de um plano de negócios consistente.

Outro indicador que merece destaque mostra que mais de 80% dos brasileiros consideram abrir sua própria empresa como uma opção desejável de carreira. Esse é um reflexo do comportamento de uma nova geração de empreendedores, que deixou para trás o velho sonho da geração anterior de ser empregado em uma grande empresa, ou ainda melhor, um funcionário público. Não por acaso, a pesquisa também mostra um empreendedor mais jovem e com maior nível de escolaridade. Essas mudanças tem o potencial de consolidar o Brasil como um País verdadeiramente empreendedor – condição necessária para qualquer país desenvolvido – em curto espaço de tempo.

O contraponto fica por conta do fato de que esses indicadores são atingidos a duras penas. Embora a Lei Geral da Pequena Empresa tenha trazido melhorias importantes, esses avanços ainda representam muito pouco frente ao ambiente hostil no qual esses empreendedores são lançados quando começam a operar suas empresas. Temos a segunda maior carga tributária da América Latina e a mais pesada entre os países emergentes. Ocupamos a 116ª posição no ranking Doing Business, que avalia a facilidade para se fazer negócios em 189 países, atrás de “potências” econômicas como Botsuana e Tonga, por exemplo. E, na prática, qualquer pessoa que já tenha se aventurado a empreender sentiu na pele os absurdos da legislação, a dificuldade da burocracia e a sensação latente de que, por definição, o empresário é visto com desconfiança e descrédito até que se prove o contrário.

É nesse cenário que o empreendedorismo brasileiro avança. Não é difícil imaginar o que poderíamos fazer em situação mais favorável. O setor produtivo carrega nas costas um estado ineficiente às custas do trabalho de empreendedores e empreendedoras que teimam em progredir apesar das adversidades. E, pra piorar, não há qualquer sinal de melhora no horizonte. Ao contrário, se há sinais, eles são de retrocesso, com a corrosão dos fundamentos da economia e a crescente desconfiança do mundo em relação ao País. Infelizmente, essa é a realidade do empreendedorismo no Brasil. E infelizmente, é assim que esse empreendedorismo floresce: contra tudo e contra todos!